segunda-feira, 5 de abril de 2010

Manual de combate à violência doméstica.

Izabel Leão / Jornal da USP
O Instituto de Psicologia (IP) da USP lançou, no início do mês, o Inventário de Frases no Diagnóstico de Violência Doméstica contra Crianças e Adolescentes (IFVD), um instrumento para auxiliar na identificação da violência física e sexual doméstica contra crianças e adolescentes de 6 a 16 anos de idade. No evento de lançamento do manual, realizado na Livraria da Vila, em São Paulo, ocorreu também uma mesa-redonda, que contou com a presença da professora Rosa Inés Colombo, da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires, na Argentina – criadora do instrumento –, Dalka Ferrari, do Instituto Sedes Sapientae, e a professora Leila Tardivo, do Instituto de Psicologia.

O manual brasileiro foi coordenado pela professora Leila Tardivo com o objetivo de apresentar o estudo comparativo dos resultados levantados na aplicação do IFVD entre crianças vitimas de violência doméstica com um grupo controle. O instrumento IFVD é composto de 57 frases de simples compreensão, às quais as crianças e adolescentes devem responder sim ou não, e foi traduzido do espanhol para o português a partir de uma pesquisa financiada pela Fapesp. O manual também apresenta os resultados obtidos na pesquisa realizada com 1.010 crianças e adolescentes, sendo 503 com experiência de agressão doméstica comprovada e 507 sem essa suspeita. “Constatamos que, entre as vítimas, a maior parte de sujeitos é do sexo feminino. A violência mais frequente é a física e a sexual, principalmente no sexo feminino. Esses dados confirmam estudos epistemológicos da área”, ressalta Leila. “Essa pesquisa comprova o quanto esse instrumento pode ser útil na tarefa de identificar a violência, devendo ser usado quando há suspeita de agressão.”

Embora a finalização do trabalho seja importante para outros profissionais da área, a professora se diz preocupada por saber que ainda há tantas crianças e adolescentes que sofrem a experiência da violência dentro de seus lares, com todas as conseqüências decorrentes na saúde física e mental desses jovens. “É nos lares que se espera que as crianças sejam protegidas, amparadas, cuidadas e amadas para se desenvolver. No entanto, uma vez que esse fenômeno se configura em triste realidade, é urgente cada vez mais conhecê-lo e compreendê-lo para poder enfrentá-lo: prevenindo e tratando. É uma missão de todos, em especial de profissionais da área da saúde e da educação.”

Leila conta que, ao tomar contato com o instrumento, decidiu realizar um estudo, procedendo à tradução do inventário. Ela verificou que as crianças compreendiam bem as frases e que estas discriminavam crianças vítimas de violência, em relação às sem suspeita de vitimização.

O manual
O manual é composto de seis capítulos, além das referências bibliográficas e os anexos. O primeiro capítulo trata do fenômeno da violência doméstica contra crianças e adolescentes, constituindo-se na fundamentação teórica, trazendo o referencial com o qual se aborda o fenômeno, com apresentação de bibliografias, para consulta e pesquisa.

A descrição do IFVD é realizada no segundo capítulo, composto por 57 frases. Por exemplo: “tenho muito medo da noite”, “meus amigos sabem tudo a meu respeito”, “Muitas vezes tenho vontade de pegar algo que não é meu”, “Estou triste porque tudo dá errado comigo”, “Acredito que meu pai não vai me machucar”, “O tempo todo me incomodam as lembranças de coisas feias que me aconteceram”, “Sinto meu corpo usado”, “Todos me traem”, “Estou louco/a”).

São frases de simples compreensão, que exigem que a criança responda sim ou não (se têm a ver com sua vida), sendo que as frases não tratam da experiência de vitimização de forma direta, mas estão relacionadas aos transtornos que a ela traz, emocionais, cognitivos, sociais e físicos.

O relato da pesquisa apresenta-se no terceiro capítulo, com descrição da composição dos dois grupos estudados: 503 crianças vítimas de violência doméstica comprovada, do grupo experimental, e 507 crianças sem suspeita de serem vítimas dessa experiência, que compõem parte do grupo controle. “É importante observar que houve dificuldades no trabalho de campo, mas que foram enfrentadas e vencidas”, afirma Leila.

A equipe pesquisadora visitou centros de atendimento, organizações não-governamentais e vítimas da violência doméstica. Leila conta que todos os procedimentos foram seguidos criteriosamente para compor o grupo experimental de crianças e adolescentes que seriam entrevistados. Foram realizadas reuniões e palestras com diretores, orientadores de escolas e com os pais das crianças. Termos de consentimento foram assinados, e também entrevistas individuais foram realizadas.

Nesse levantamento, Leila e equipe constataram que em alguns bairros a violência física por parte do pai, principalmente, era mais frequente, o que deixou claro que a violência física na infância, no Brasil, ainda é considerada uma forma de educação e disciplina.

Ainda no terceiro capítulo encontram-se as tabelas com os dados estatísticos dos resultados encontrados. Na maioria dos casos as crianças vítimas de violência são do sexo feminino, nas idades entre 10 e 11 anos, com nível de escolaridade da primeira série, com um atraso considerável quando comparados aos sujeitos do grupo controle, “sendo esse problema na educação formal um dos efeitos da violência doméstica”, observa Leila.

altO tipo de violência mais encontrado foi a física e a sexual, muito mais frequente no sexo feminino. O IFVD diferenciou de forma estatisticamente significante os grupos de crianças vitimas de violência doméstica (grupo experimental) daquelas sem suspeita de vitimização (grupo controle). “Assim as médias do grupo experimental foram sempre maiores que o de controle em todas as situações investigadas”, afirma.

O capítulo quatro descreve as instruções a serem seguidas na aplicação do IFVD e o quinto capítulo expõe a interpretação dos dados. Os casos clínicos estão descritos no sexto capitulo, apresentando protocolos de três meninas vitimas de violência doméstica e que apresentaram pontuação compatível com a obtida no grupo experimental.

Leila ressalta que embora o IFVD tenha sido criado na Argentina e traduzido para o português, é perfeitamente válido empregá-lo em um número representativo de crianças brasileiras. “É um instrumento que discrimina os dois grupos, ou seja, crianças vítimas de violência doméstica (nas formas física e sexual) e aquelas sem essa experiência, sendo possível dizer que foram encontradas evidências de que o instrumento foi capaz de discriminar vitimas de violência infantil das que não apresentavam esse tipo de problemática na amostra estudada”, complementa. “Nosso objetivo maior é poder ajudar a melhorar a vida de centenas de crianças e adolescentes que sofrem com essa violência, oferecendo um atendimento melhor, formando pessoas e trabalhando na prevenção.”

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